O Sul Global como lugar de teoria

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Uma estudante lê no celular, dentro do ônibus, com dados compartilhados com a família, entre dois turnos de trabalho. Ela não tem banda estável, não tem computador próprio e não tem lugar silencioso em casa.

Essa estudante representa a maioria de nossos jovens, não a exceção.

Qualquer arquitetura educacional que pressuponha banda larga estável, máquina pessoal e ambiente doméstico de estudo está, por construção, excluindo a maior parte dos estudantes do mundo.

A leitura habitual dessa cena é de déficit. Falta infraestrutura, falta equipamento, falta tempo de estudo. E o déficit vem acompanhado de um roteiro: chegaremos lá, com atraso, aonde eles já estão. Mas esse roteiro é empiricamente falso, e temos como demonstrar.

Sistemas bancários e de saúde em dispositivos móveis, extensão agrícola por telefone: em cada um desses casos o Sul Global, longe de reproduzir com atraso, liderou soluções inovadoras. O Pix não é versão tardia de um arranjo do Norte, e sim invenção sob restrição que o Norte hoje estuda como fazer; e a razão de ter nascido aqui não é acaso nem apenas talento nacional, mas o fato de que quem precisa atender a muita gente com investimento escasso é obrigado a resolver problemas que sistemas ricos podem se dar ao luxo de contornar comprando mais infraestrutura.

É essa a inversão que Silvio Meira e eu propomos para o ensino superior. E ela tem uma formulação que me parece decisiva: um arranjo que funciona nas condições em que a maioria transita é geral. Um arranjo que só funciona nas condições do campus de elite é provinciano.

Trocamos os nomes de lugar. O que chamamos de padrão internacional costuma ser o caso particular mais bem financiado.

Quatro pressões atravessam os contextos do Sul, e uma delas me interessa mais do que as outras.

A primeira é infraestrutura. Projetar para o celular e para pouca banda não é preferência estilística; é a modalidade dominante de acesso, e trata-se de reconhecer que a arquitetura do campus de elite não é portátil para condições de acesso em massa sem distorção.

A segunda é a língua. Modelos treinados majoritariamente em inglês marginalizam sistematicamente línguas regionais, indígenas e minoritárias — e, com elas, as tradições de conhecimento que essas línguas carregam. Uma língua mal representada nos corpora fica estruturalmente em desvantagem na dimensão digital, por mais rica que seja sua vida social e material.

Isso não é problema de tradução. Localizar interface é necessário e insuficiente. O instrumento substantivo é outro: alguém precisa especificar o que conta como desempenho adequado em português, numa disciplina determinada. Precisão terminológica, sensibilidade de registro, capacidade de avaliar saída técnica na língua em que a disciplina é praticada. Nada disso é automático, e nada disso vem de fora.

A terceira pressão é trabalho acadêmico. O risco de taylorismo digital é mais agudo onde grande parte do ensino já é feita por contrato precário, porque ali a margem de erro é menor, a tendência à fragmentação já está instalada e uma reforma que se apresente como modernização pedagógica, sem tocar nas condições de trabalho sobre as quais ela vai rodar, acaba consolidando exatamente a precariedade que dizia vir corrigir.

A quarta é soberania. Quando uma infraestrutura digital global orquestra valor ao longo de uma cadeia, os ganhos se acumulam em quem hospeda e regula a camada de orquestração. Soberania, nesse quadro, não é preocupação defensiva, mas precondição de capacidade pública.

Há um ponto que eu quero registrar com clareza, porque costuma passar despercebido inclusive por quem nos lê com simpatia.

O quadro triádico das inteligências (individual-coletiva-artificial) e a ontologia figital que sustentam nosso argumento não foram importados. Foram formulados aqui, em contexto institucional brasileiro, com atenção explícita às assimetrias da economia digital global e à missão pública sob restrição de recursos. Não são estruturas do Norte adaptadas ao Sul com ajustes locais. São instrumentos conceituais originados no Sul, que o artigo estende ao ensino superior em escala global.

A diferença é metodológica, e tem consequência prática imediata: tratar o Sul como lugar de teoria significa que casos e pesquisadores daqui entram como insumo primário na construção do argumento, e não como ilustração complementar que se acrescenta ao final, depois que o quadro geral já foi fechado em outro lugar e com outras condições em vista.

Entretanto, o engajamento Sul-Sul que aconteceu em saúde, em agricultura e em finanças móveis nas últimas duas décadas não aconteceu ainda para o ensino superior. Lemos a literatura do Norte com atenção e ainda lemos pouco uns aos outros. Eu mesmo consigo citar de memória uma dúzia de estudos estadunidenses e europeus sobre IA no ensino superior, e teria dificuldade para nomear três produzidos na Nigéria, na Índia ou no México. Escrevo sobre o Sul como lugar de teoria com uma bibliografia que ainda é majoritariamente do Norte.


Este texto não é tradução. É o desdobramento, em português e para o terreno brasileiro, de uma das linhas de argumento de The University After Generative AI, que escrevi com Silvio Meira e cujo PDF completo está aqui no site. O paper trata do problema em escala planetária e no registro da revisão de políticas. Aqui a questão é outra: o que esse argumento cobra de nossas instituições, de nossa legislação e de nosso sistema de reconhecimento acadêmico. As passagens sobre o Brasil são minhas e não constam do original.