Arte da capa de The University After Generative AI

A universidade depois de IA generativa

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O primeiro degrau da escada desapareceu.

O trabalho de entrada nas profissões — a revisão de documentos do advogado recém-formado, a planilha do analista júnior, o rascunho refeito três vezes até sair certo — era a rotina pela qual se aprendia um ofício exercendo-o, e é exatamente aquilo que os sistemas generativos passaram a fazer em segundos e a baixo custo. A demanda por julgamento especializado sobe. Os degraus em que esse julgamento se formava somem. Polanyi já nos dizia que sabemos mais do que conseguimos enunciar; o que não estava previsto é que a escada de acesso ao tácito fosse desmontada justamente quando o topo ficou mais valioso.

O mesmo paradoxo opera dentro da instituição que deveria preparar essas pessoas. IA pode deslocar o trabalho acadêmico para a mentoria e a orquestração, ou fragmentá-lo em taylorismo digital mediado por painéis de indicadores — e nada na tecnologia decide entre as duas coisas. Decide o desenho. Decide quem desenha.

Foi por aí que Silvio Meira e eu entramos neste texto, agora em sexta versão. A distinção que o organiza é entre universidade IA-habilitada e universidade IA-nativa. A primeira acrescenta ferramentas a uma arquitetura herdada e chama isso de transformação. A segunda redesenha aprendizagem, avaliação, credenciais, governança de dados, trabalho acadêmico, modelos de negócio e parcerias externas em torno de IA como infraestrutura cognitiva, o que é coisa bem diferente de comprar licenças. A pergunta não é mais como as instituições adotam IA. É como educam, avaliam, certificam e organizam o trabalho acadêmico quando IA está em toda parte.

Tomamos a universidade como hiperobjeto sociotécnico, termo que pedimos emprestado a Morton com qualificações deliberadas, e o desdobramos em quatorze dimensões alinhadas — do propósito e da ordem epistêmica ao trabalho acadêmico, aos ecossistemas e ao valor público. A lista não é taxonomia. É instrumento de diagnóstico, e serve para perguntar de uma reforma qualquer se ela move as dimensões que precisam se mover juntas, ou se mexe em uma só e chama o resto de resistência cultural.

Daí saem: (a) uma ontologia triádica da inteligência — individual, social e artificial — cuja composição superaditiva é a substância do trabalho metacognitivo; (b) um currículo em cinco camadas, que protege a capacidade fundacional enquanto distribui fluência em IA e em dados; (c) um regime de avaliação assentado em desempenho autêntico, visibilidade de processo e defesa ao vivo, em lugar do artefato escrito não supervisionado; (d) oito vinhetas de projeto, da estudante de biologia do primeiro ano ao hub comunitário no Sul Global, que trazem a composição IA-nativa para a vida institucional cotidiana; e (e) uma arquitetura de implementação em quatro horizontes — noventa dias, doze meses, três anos, dez anos.

Tratamos o Sul Global como lugar de teoria, não como caso de déficit ou de adoção tardia. Infraestrutura, multilinguismo, trabalho acadêmico e soberania de dados são questões de projeto cuja relevância termina sendo universal, e a distância entre a universidade brasileira e o modelo que circula nos documentos de política internacional é analítica antes de ser econômica.

Há também sete riscos nomeados, e uma tese sobre a recusa: a capacidade de dizer não a um arranjo técnico é o que distingue uma universidade das plataformas que a imitam. Instituição que não consegue recusar nada não está governando coisa alguma.

Em algum ponto o argumento se volta contra quem o escreve. Uma universidade não forma ninguém para a orquestração metacognitiva enquanto organiza o próprio trabalho como cumprimento programado de regras. A destruição criadora que IA exige precisa acontecer dentro da instituição, e não apenas ao seu redor. Essa é a parte do texto de que tenho menos certeza, e é também a que mais me interessa discutir.


O texto completo

The University After Generative AI: A Field Guide for Designing AI-Native Higher Education, 2026–2035
Silvio Meira e Luciano Meira. TDS.company, versão 6, julho de 2026. 89 páginas, em inglês.
ISBN 978-65-978626-4-1


Desdobramentos em português

O artigo está em inglês e trata do problema em escala planetária. Duas de suas linhas eu trouxe para o terreno brasileiro, em textos que podem ser lidos por conta própria: